Rádio

Walter Silva iniciou-se no rádio em 1952 na Rádio Emissora de Piratininga (São Paulo na Praça do Patriarca), como locutor comercial ad hoc fazendo as folgas diárias dos locutores da casa; assim sendo trabalhava cada dia em um horário fazendo um tipo de coisa diferente, adquirindo com isso bastante experiência de microfone.

Até então, Walter havia tido um sem número de empregos nas mais variadas atividades; quem levou-o para o rádio foi um colega seu de trabalho na Vasp, onde Walter se ocupava do setor de encomendas, levado pelo seu primo José Camurça e realizando um sonho de sua avó que o criou, sonho esse que durou um ano apenas pois sua vocação para o rádio falou mais alto. Renaux, seu colega de Vasp, apresentou-o ao redator Reinaldo Santos que conseguiu para ele o emprego de locutor substituto na Rádio Piratininga.

Antes, havia sido locutor do serviço de alto-falantes Moóca do técnico de som Mário Mattos que operava na hora do almoço e no fim da tarde num segundo andar de um edifício na rua Taquari, próximo à rua da Moóca. Ganhava 500 cruzeiros por mês o que não era pouco, se considerarmos que o salário mínimo era de 1.190 cruzeiros.

Antes ainda foi locutor e animador do GGPTB (Grêmio Glorioso Progresso Tobias Barreto), clube de futebol engajado na campanha política de 1950 que recebia ajuda dos candidatos a deputado, Otávio Rodrigues Maria e Mário Aprille.

Quando menino, aos 10-12 anos, falou no microfone pela primeira vez numa rádio pirata montada pelo seu primo Pedro Lazarini na rua Dom Bosco onde apresentava programa de calouros e narrava boxe das lutas promovidas pelo seu primo. A rádio cobria um raio de 1 km. No programa de calouros tudo era produzido; as meninas, filhas de espanhóis, cantavam e dançavam flamenco todas paramentadas com suas rendas e mantilhas, seus sapatos e seus taconeos. Tal precocidade só tinha que desaguar numa carreira radiofônica plena de êxito.

Em 1953, Walter foi parar em Mogi das Cruzes, na Rádio Marabá, tendo sido contratado por engano pelo então diretor da rádio, o locutor Paulo Rogério, depois de fazer todos os testes. Paulo Rogério perguntou a ele o seu nome, ao que Walter respondeu: "Meu nome é Walter Silva". Paulo Rogério assustado perguntou: "Mas você não é o Carlos Clodomiro?". Walter falou: "Não. Eu me chamo Walter Silva. Eu fazia a tarde esportiva da Rádio Piratininga em substituição a ele quando de sua folga; você talvez tenha confundido". Paulo Rogério disse: "Não é que eu confundi mesmo? mas seu teste foi ótimo e o emprego é seu". Salário inicial 1.500 cruzeiros, só que de condução eu gastava 900 cruzeiros. Não durou muito "essa farra". Já, ao final daquele ano, Walter estava começando na Rádio Nove de Julho, no Ibirapuera, emissora do Serviço de Comemorações Populares do IV Centenário de São Paulo. Lá permaneceu até dezembro de 1954, trabalhando ao lado de nomes importantes como: professor José Ferreira Carrato, Fernando Faro, Francisco Renato Duarte (Quico), irmão do consagrado radialista Raúl Duarte, Eli Otávio de Lacerda, Hélcio de Souza, Geraldo Vieira, Elizabeth Darcy, locutora e mãe de Silvio Luis, entre outros. Aí, terminada a festa do IV Centenário, onde Walter foi, além de locutor, apresentador dos espetáculos em praça pública, como festivais folclóricos, nacionais e internacionais, tendo tido a honra de entrevistar o maestro Heitor Villa-Lobos, Walter foi para a Rádio Cultura, como locutor, tendo oportunidade de participar do programa "Nós Os Gatos" de Jacinto de Thormes que obrigava ao locutor e convidados o uso de "smoking" embora sendo programa de estúdio.

Walter foi também colega de Luis Lopes Correia, Clóvis Augusto Briant, J. Alvise Assunção, sendo também secretário de Manoel de Nobrega no programa "Domingo sem Bola". Ao mesmo tempo, Walter foi chamado para ser divulgador da Rádio Nacional de São Paulo cujo o chefe de departamento era Humberto de Campos Filho. Depois saiu da Cultura e ficou só na Nacional aguardando Vitor Costa cumprir uma promessa de emprego no Rio de Janeiro. Na época, Vitor era dono das rádios Mairink Veiga e Mundial, no Rio de Janeiro e Nacional, Excelsior, Cultura e TV Paulista, em São Paulo. E, como o sonho de todo profissional de rádio, de qualquer parte do Brasil, era um dia trabalhar no Rio de Janeiro, que era capital da República, onde imperava o conjunto de ondas curtas da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, graças a concessão exclusiva da ditadura Vargas, Walter não era diferente, sonhava com o Rio. Fim de 1954 ei-lo chegando ao Rio de Janeiro onde, depois de aguardar por três meses, finalmente Vitor Costa sinalizou para a sua contratação. Enquanto isso, Walter, que morava no bairro Peixoto, em Copacabana (Rua Décio Villares), tinha que diariamente ir, à pé, de sua casa, próxima ao Túnel Velho, até a praça Mauá, onde, ao lado, ficava a Rádio Mairink Veiga. Lá fez de tudo, foi locutor, apresentador, narrador dos interprogramas, ao lado de Luis Jatobá, Cid Moreira, Carlos Henrique e Braga Júnior e aos domingos, apresentava, do auditório, a famosa orquestra Tabajara de Severino Araújo, juntamente com a locutora, também de São Paulo, Silvana Aguiar. No fim de tarde apresentava, ao vivo, do estúdio ora o Regional de Canhoto (Altamiro Carrilho na flauta, Orlandinho Silveira no acordeon, Dino e Meira, violões, Gilson no pandeiro e o próprio Canhoto no cavaquinho) ora Patrício Teixeira, cantor regional, veterano, que foi professor de violão de Nara Leão, ora Onéssimo Gomes seresteiro, ao estilo Silvio Caldas, todos funcionários estáveis do quadro da Mairink Veiga que tinham que trabalhar, pelo menos, uma vez por semana. Os diretores que exigiam isso eram: Edmundo de Souza e Francisco de Abreu, depois diretor da Rádio Nacional de São Paulo, onde ficou por quase trinta anos.

Na parte da manhã, fazia "um bico" na redação da SOCIPRAL, empresa de Vitor Costa, montada para contratar artistas para a Rádio Mairink Veiga, sem vínculo empregatício com a emissora, que continuava sendo da família Mairink Veiga. Nessa empresa, na sua redação, Walter teve oportunidade de conviver diariamente com os redatores dos programas humorísticos da Mairink Veiga, como Chico Anysio, Sérgio Porto, Antônio Maria, Haroldo Barbosa, Amaral Gurgel, que eram responsáveis pelos programas "Este Norte é de Morte", "Alegria da Rua", "A Cidade se Diverte", "Vai da Valsa", entre outros. Foi muito gratificante conviver com esses gênios do humorismo, afirma Walter Silva.

Ainda no Rio, Walter Silva inicia carreira de divulgador dos discos RGE que estavam lançando Maysa para todo o Brasil. Ocupava uma parte de uma sala na rua São José, cedida à José Scatena por Irineu Garcia, que era onde funcionava a sua pequena gravadora, Discos Festa, que só gravava discos de poesia, como: Pablo Neruda, Cassiano Ricardo, Manoel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e tantos outros. Foi ele o responsável pelo lançamento, em 1958, do LP Canção do Amor Demais, com Elizeth Cardoso, que unia pela primeira vez as letras de Vinícius de Moraes com a música de Tom Jobim e o violão de João Gilberto. Levado por Irineu Garcia, ia Walter Silva, todas as tardes, a uma mercearia chamada Vilariño, onde, diariamente, lá se encontravam os funcionários públicos na Esplanada do Castelo para um happy-hour. Assim sendo, Walter teve o privilégio de conviver com os maiores intelectuais do país, que lá se reuniam diariamente: Paulo Mendes Campos, Manoel Bandeira, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Sérgio Porto, Lúcio Rangel, Carlos Drummond de Andrade, que era chefe de gabinete do ministro Gustavo Capanema, Fernando Lobo e outros importantes nomes de nossa cultura. Com Maysa Walter correu todas as rádios do Rio e conseguiu junto a Henrique Pongetti um artigo de página na revista Manchete, cujo o título era "Quando Canta um Matarazzo". Com este trabalho de divulgação, mais os jornais, Maysa ficou nacionalmente conhecida. Para que se tenha uma idéia, quando Walter entrou para a RGE havia 450 discos de Maysa encalhados nas prateleiras daquela gravadora, no mês seguinte mais de três mil discos foram vendidos, e daí pra frente, foi um dos maiores sucessos de venda da gravadora. Maysa convidou Walter Silva para ser seu secretário de imprensa, como o salário era ótimo, Walter aceitou e voltou pra São Paulo para trabalhar na RGE.

Em 1957, Walter Silva, convidado por Paulinho de Carvalho, passou a apresentar um programa vespertino das 13:30h às 15:00h chamado "A Toca do Disco", pela Rádio Record. O sucesso foi tão grande que ameaçava a liderança da Rádio Bandeirantes com o seu "Telefone Pedindo Bis", de Enzo de Almeida Passos. Rompendo com Paulinho de Carvalho, demitiu-se da Record e procurou emprego junto a Murilo Leite, na Rádio Piratininga, que começava a operar em parceria com a Rádio Bandeirantes. Murilo, imediatamente convidou-o para ir para a Rádio Bandeirantes, onde lançou, em 1o de Dezembro de 1958, o seu "Pick-Up do Pica-Pau", título escolhido por J. Antônio D'Ávila e Hélio de Araújo, que o haviam reservado para ser título de um programa com Ronald Golias na Rádio Nacional de São Paulo. Como Golias não fez o programa, o título foi dado à Walter Silva pelos dois conhecidos radialistas.

O sucesso desse programa fez-se sentir imediatamente em todo o Brasil, dando à Rádio Bandeirantes no horário de 10:00 ao meio dia índices assustadores. Para que se tenha uma idéia, o "Pick-Up do Pica-Pau" chegou a dar 22 pontos no IBOPE, índice até hoje não alcançado por emissora de Rádio nenhuma, em todo o território nacional; o que era dito naquele programa era lei. Grandes nomes do disco foram lançados no "Pick-Up do Pica-Pau", entre eles Elis Regina que foi levar seu primeiro disco para ser tocado e ouviu de Walter Silva as seguintes palavras: "Menina, você vai ser a maior cantora do Brasil". Isto esta gravado numa fita de uma ouvinte do programa.

João Gilberto teve seu primeiro disco de Bossa Nova "Chega de Saudade" também lançado nesse programa. Assustado com as novidades rítmicas, harmônicas, melódicas e poéticas além da incrível sonoridade vocal de João, Walter Silva fez um concurso na hora, dando de presente LPs, a quem conseguisse cantar inteira e sem errar, a gravação de João. O Maestro Erlon Chaves, que visitava o programa, serviu de juíz, ouvindo as ligações que eram feitas pelos ouvintes. Depois de muito ouvir apareceu um ouvinte que conseguiu canta-la inteirinha sem errar, perguntado o seu nome, ele disse: "Eu sou Chico, dos 'Titulares do Rítmo'". Logo depois mais um conseguiu cantar inteira sem errar, o "Chega de Saudade": seu nome, Agostinho dos Santos, de onde se deduz que só pessoas com muita musicalidade poderiam se atrever a participar daquele concurso. E assim foi durante cinco anos pela Rádio Bandeirantes, o sucesso do "Pick-Up do Pica-Pau".

Rompendo com a direção que havia demitido o melhor amigo de todos os funcionários, que era Alberto Saad, Walter Silva levou atrás de si mais 25 funcionários daquela emissora e estreou no seu "Pick-Up" na Rádio Excelsior, onde logo no primeiro ano ganhou o prêmio Roquette Pinto como melhor "disc-jockey". Em 1962 esteve, ainda pela Bandeirantes, no mês de novembro no "Carnegie Hall" nos Estados Unidas, transmitindo com exclusividade, para todo o território nacional, aquele show de bossa nova que marcou a música popular brasileira moderna em todo o mundo. Por esse trabalho é que ganhou, já na Excelsior, o prêmio Roquette Pinto.

Também na Rádio Excelsior, o "Pick-Up do Pica-Pau" deu primeiro lugar no IBOPE sendo o primeiro programa, de toda história daquela emissora, a obter tal colocação. Daí pra frente foram vinte anos de peregrinação pelas emissoras de São Paulo, sempre com enorme sucesso, passando pelas rádios: Record, Excelsior, Tupi, Piratininga, sempre primeiro no IBOPE.

Walter Silva deixou o rádio quando atuava na Rádio Cultura, onde produzia e apresentava "Quais as Músicas que Fizeram sua Cabeça", "Música Popular Walter Silva" e "Musicultura", que representavam a maior audiência da rádio, era 1987 quando Walter aposentou-se e passou a dedicar-se somente ao jornal, outra de suas profissões de sucesso, tendo escrito no jornal Folha de S. Paulo durante dez anos consecutivos (1971-1981), uma coluna diária sobre música popular, rádio e discos.

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